Hoje lembrei-me da história de um rapaz que recebe um bolo enfeitiçado. Por suspeitar que a sua pretendente recorria a meios pouco lícitos para obter o seu amor, o rapazote, bom partido (já agora, haverá algum partido bom?) levou a sua suspeição e credulidade até ao fim e na dúvida deu o bolo (também entendido no sentido de pão)…ao seu cavalo.
Que bom, deveria ter dito o cavalo, um bolo! Desculpem, foi apenas o meu entusiasmo, pois no conto tal comentário nunca é feito pelo cavalo… nem pelo narrador. Em contrapartida, temos a forte presença de um cavalo que se expressa agindo apaixonado; no auge da paixão pela menina que lhe fez a comezaina, vai, com seus cascos, bater-lhe veementemente à porta. Tremenda desilusão sente a menina-que deu-bolo-com-feitiço-ao-objecto-dos-seus-sonhos-e-que-por-ele-esperava… Quem disse que os seres vivos são previsíveis ?…
Ora bem, esta história com cavalo surgiu a propósito do livro que comecei a ler (grande novidade! Recomecei a leitura de alguns livros em atraso), ou seja, Qual é a minha ou a tua língua? Cem poemas de amor de outras línguas. Reconheci alguns dos textos escolhidos, vão ler, enquanto deixo aqui o lembrete da história do rapaz, do cavalo e da menina. Podemos encontrar a versão completa deste conto (que também fala de amor…) em Contos Populares Portugueses, coligidos por José Leite de Vasconcellos. Amor e ironia não faltam nos nossos contos nem na minha memória.
Se é perigoso comer pão/bolo actualmente deve ser devido aos preços desgracentos que mostram os fundilhos das carteiras, mas como diz o ditado: não há fome que não dê em fartura, por isso peguei no livro que me foi gentilmente emprestado: Excesso de açucar e li até à página 38. Estava perfeitamente descansada pois na capa dizia claramente:“aviso, contém linguagem explícita” faz muita falta linguagem explicita, nos livros e no amor. Parei na referida página porque os livros são como os bolos, quando comemos/lemos um pode apetecer-nos outro ( e… o amor…) e foi assim, de mansinho, como quem quer passar uma tarde boa, que abri o Cemitério de pianos, do José Luís Peixoto. Habitualmente fujo dos cemitérios sempre que posso, por causa das lágrimas que lhes associo, e pelo ar triste que têm, deve ser essa impresão que faz com que me entristessa e chore. É certo e sabido que quando choramos em locais públicos (mesmo com público morto a assistir ) as lágrimas têm tendência para se espalharem ou ficarem do lado de dentro da cara, invisíveis. Pois… assim que prossegui a leitura da trama narrativa acima referida derramei algumas lágrimas. Visívelmente ocupada em recolher esses fluídos que se espalhavam por todo lado, parei a leitura e fiquei-me pela música, francesa, desta vez, e ouvida provavelmente pelos vizinhos (sorry) mas foi alto e bom som que tentei aliviar o peso do dia 14.
Foram tantas as emoções e algum desespero perante a preparação de algo que continua a sair mal e implica tintas e pincéis que resolvi parar para fumar um cigarro, novo exercício (raro) a que me dedico. Aparentemente, fumar parece fazer o cérebro funcionar mais lentamente, foi uma notícia lida na neet, muito apressadamente não reparei quem a assinava, por isso mereceu-me algumas dúvidas, digo, merecer-me-ia … se não tivesse relido o que acabei de escrever: deve ser verdade mesmo!
Recomendo, sem ainda o ter terminado de ler, mas sabemos logo quando vamos amar, porque o amor cola-se-nos à pele dos dedos, (inclusive quando passamos as páginas) a leitura de O Cemitério de pianos, tem uma escrita que nos prende e solta, característica que me agrada. Vamos ver quando voltarei a ele.
Agora vou impedir a gata M. de beber a coca-cola que está ao lado do pc, antes que provoque algum efeito secundário ao pc ou à gata.
A. Gonçalves
P.S.: Se conhecer meninas apaixonadas por cavalos ou outros animais diga…