Perante uma estranha incapacidade que parece ter tomado conta de mim, decidi aproximar-me dos montes de papéis arrumados em capas coloridas.
Comecei a somar: setenta vezes três, mais 19. Parei, o ritmo cardíaco não obedecia aos pedidos do cérebro. Ainda tantas páginas para corrigir, ler… fui tentar passear nas entrelinhas mas quando o cérebro coxeia, caminhar não é um exercício aprazível.
O que antes fazia com a surpresa maravilhada de querer saber (teriam conseguido, compreenderam o essencial, não estão perdidos, gostam?) tornou-se tarefa obrigatória e cansativa demais por exaustão e tanto cansaço semeado de preocupações. É o que dá fazer contas!
Nada como ir até ao ponto mais afastado da mesa de trabalho, numa tentativa última de conseguir distância de tudo o que magoa. Assim, por momentos consegue-se ouvir a música, o ressonar dos gatos e o crepitar do fogo. Amanhã terei trabalho extra, hoje vou praticar a arte da fuga temporária, não tenho ilusões, apenas uma dúvida: quando será que a arte da fuga me levará com ela, misturada no rol das coisas boas e das que não têm valor?