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cidade do interior

Junho 3, 2008

 

Parou o carro, olhou-me fixamente e ficou em silêncio. Tentei dizer-lhe que crescer dói no corpo todo: nos braços, nas costas, no coração, no pensamento, faz cócegas nas orelhas e deixa as pontas dos pés dormentes. Ainda esbocei um esgar para acrescentar que de um momento para o outro tudo parece esticar e encolher a um ritmo que foge a cálculos matemáticos apurados e que às páginas tantas a dor é maior do que o corpo visível .

No meio da multidãode carros e pessoas continuámos num ritmo, lento para o carro, apressado para os pés magoados. Até que a distância transformou a imagem do veículo num ponto azul perto do semáforo na avenida. Sempre fora mais fácil acenar aos combóios, na cidade os carros iam sempre demasiado depressa para se poder dizer adeus.  Na Baixa um artista acompanhado de uma guitarra desafinada gritava palavras indistintas, a que chamava fado. No meio da praça, antes de iniciar a subida para o castelo esperei que o vento ficasse de feição,sempre na esperança de ver as palavras distorcerem-se e retornarem ao casulo original da fala. Assim, talvez se pudessem reencontrar energias, salpicadas de cumplicidades e de sorrisos… Quem sabe se as dezenas de contos de homens e mulheres felizes, que já foram crianças ou adolescentes e ansiavam por conhecerem novas épocas felizes, vissem a luz de uma nova forma de expressão.

A vida na cidade prosseguia , no alcatrão quente os sulcos deixados pelos passos formavam estranhos desenhos, ninguém parava para decifrá-los e atrás do eléctrico surgia um mar de viaturas apressadas, dirigidas por olhos concentrados e mãos crispadas na ânsia de sair dali. As caras dos turistas estavam coradas, os rostos deviam estar quentes, pelo menos os sorrisos não demonstravam nem desmentiam a existência de lágrimas interiores, resultantes da memória de confidências, de felicidade, de amizade, de amarguras. Os tons e sons que se misturavam naquele final de dia, mostravam, sim,  o espanto de uma cidade a ser descoberta. 

A. Gonçalves 

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